A música do mundo

                                       

Quando tentamos entender de que as coisas são feitas, em geral buscamos por “coisas”, “objetos” ou “partículas” fundamentais. Tendemos a imaginar que para existirem relações, é preciso que primeiro existam “seres”, “coisas”, “objetos” ou “pessoas” que se relacionem. Mas, o que seria um “ser”, uma “coisa”, um “objeto” ou mesmo uma “pessoa” desprovida de todas as relações? O que sobra de um ser existente se eliminarmos dele todas as relações? O que sobra de uma árvore se não considerarmos sua relação com o solo, com a luz solar, com a água das chuvas e do solo, com os animais que nela se abrigam ou dela se alimentam? O que sobra desse computador no qual agora escrevo se resolvermos simplesmente desconsiderar sua relação com a rede elétrica, com os elétrons e fótons, com a história da tecnologia, com as matérias primas das quais foi feito, com a indústria que investe em sua fabricação, distribuição e comércio etc?

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Se ouvimos uma orquestra tocar, ou se vamos a um show do FooFighters, temos diversos instrumentos de cordas cujas vibrações produzem diferentes notas, acordes, melodias, harmonias, ritmos, dissonâncias... (No caso da orquestra violinos, cellos, contrabaixo, violas etc. No caso do FooFighters, as guitarras de Pat Smear, Chris Schiflett e Dave Grohl, o baixo de Nate Mendel e as incansáveis cordas vocais do próprio Dave, é claro). É como se as vibrações das cordas se entrelaçassem de maneira ao mesmo tempo conflituosa e harmoniosa produzindo música. E se o mundo funcionasse justamente assim? E se o que houver de mais elementar no mundo forem justamente cordas tremulantes cujas vibrações se entrelaçam compondo partículas, moléculas, objetos, pessoas, impulsos elétricos neuronais, astros, galáxias etc? E se o mundo for uma grande composição musical?

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A música nos traz um belo exemplo de composição relacional em que elementos da mesma natureza produzem diferentes acordes, arranjos e melodias. Notas musicais não são diferentes por natureza. São apenas vibrações sonoras. Mas a frequência e a intensidade da vibração fazem com que um mesmo movimento – o vibrar – produza diferentes sons, diferentes notas. Essas diferentes notas se entrelaçam relacionando-se através do que têm em comum – o fato de terem a mesma natureza, o fato de serem todas vibração – para formar acordes, harmonias, dissonâncias e melodias bastante diferentes. Mas talvez possamos aprofundar ainda mais a metáfora.

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Afinal, assim como na música precisamos de instrumentos que, a princípio, não são vibrações, mas são causa das vibrações, os estudiosos da teoria das cordas fazem a suposição de que o mundo é composto de cordas vibrantes que, no entanto, não seriam elas próprias vibrações. Mas se o mundo for realmente feito de relações, talvez não tenhamos que encontrar um elemento último, talvez possamos falar de “cordas” se a linguagem não nos permitir infinitizar sentenças, mas, talvez mentalmente, possamos nos esforçar para compreender que as cordas também são feitas de vibrações.

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Se não há nenhum “ser”, “partícula” ou “corda” absolutamente independente e autossuficiente, podemos imaginar um mundo infinitamente pulsante e vibrante de relações dinâmicas igualmente pulsantes e vibrantes que constituem todos os seres existentes em qualquer escala imaginável. Um mundo de circunstâncias pulsantes e vibrantes, entrelaçadas em rede, fazendo emergir configurações, ordenações, estabilidades provisórias, às quais nos referimos como “átomos”, “coisas”, “pessoas”, “ideias”, “astros” ou “galáxias”. Talvez possamos pensar o mundo como uma grande rede, uma “world wide web”, uma rede dinâmica de circunstâncias em franca interação. Uma grande rede de circunstâncias pulsantes que em sua interação se constituem mutuamente e que, constituindo-se mutuamente, constroem a grande rede mundial que as constrói.

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Texto de: Diogo Bogéa (@oficinadefilosofia)

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Imagem: Kandinsky - Composição VII

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