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Mostrando postagens de fevereiro, 2023
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                                                 Imagem: Vitral da Catedral de Berna   Um profundo descontentamento O mundo é nossa representação – diz Schopenhauer. O mundo é como um quadro da realidade. A esta obra dá-se tudo o que se deseja, tudo o que se possui psiquicamente. Algumas partes agradarão. Mas, infelizmente, a obra como um todo não. Isso porque nada no mundo é suficiente, sempre caberá mais uma pincelada, um contorno, uma cor, uma sombra, uma ideia, uma personagem. Buscar-se-á sempre algo mais, por excelência. Por conseguinte, enquanto se pinta este quadro, há duas questões, no mínimo. A primeira: há exageros. Pode-se querer voltar atrás, apagar o que foi pintado. Porém, existem coisas que jamais se podem apagar; pode-se até pintar outra por cima – que não irá satisfazer plenamente –, mas aquilo que já foi, embora tenha-...
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                                                             Imagem: "Morphologie" do crânio de Freud, por Salvador Dalí A psicanálise e a sua raiz no jardim do pensamento: A psicanálise nasceu no final do século XIX, através da genialidade de Sigmund Freud; o primeiro sucesso dentro da teoria psicanalítica foi o livro: “A interpretação dos sonhos” (1900). Na alvorada psicanalítica, Freud e a sua criação receberam diversos ataques, a psicanálise era vista por alguns como charlatanismo, era tida como algo que não conseguiria plantar suas raízes no terreno do jardim do pensamento. Mas os críticos estavam errados, não só a psicanálise plantou as suas raízes no jardim do pensamento, como criou o seu próprio jardim; se transformou em uma ferramenta de investigação e hoje é uma lente necessária para olharmos ...
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                                                        Imagem: Hieronymus Bosch - Os sete pecados capitais O Big Brother: do vigiar e punir ao exibir e curtir Big Brother é o líder supremo do totalitarismo absoluto idealizado por George Orwell no livro 1984. A obra mostra a plena realização daquilo que Foucault chamou de Sociedade Disciplinar : uma sociedade toda composta por instituições onipresentes baseadas em rígidos regimes de vigilância e punição – escolas, fábricas, quartéis, hospitais, manicômios, prisões. A obra de Bosch (Os sete pecados capitais) retrata o olho vigilante de Deus, grande modelo metafísico da Sociedade Disciplinar. . Como nos lembra Foucault, a Sociedade Disciplinar forjou por um lado “indivíduos” – cada um com seu armário, cada um com seu quartinho, cada um com seu lugar na linha de montagem...
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                                            Imagem: Portinari - Palhacinhos na gangorra “ Ela desatinou, viu chegar quarta-feira Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando E ela inda está sambando Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias Os dias sem sol raiando e ela inda está sambando Ela não vê que toda gente Já está sofrendo normalmente Toda a cidade anda esquecida, da falsa vida, da avenida Onde Ela desatinou, viu chegar quarta-feira Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando E ela inda está sambando Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias Os dias sem sol raiando e ela inda está sambando Quem não inveja a infeliz, feliz No seu mundo de cetim, assim Debochando da dor, do pecado Do tempo perdido, do jogo acabado” Chico Buarque . O contraste entre a alegria sem medidas do carnav...
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                                                             Imagem: Di Cavalcanti - Carnaaval na rua O carnaval visto pela lente da Psicanálise Somos seres que vivemos e sustentamos um pacto social vigente, esse pacto vira uma “realidade” no momento em que somos guiados por ele. Esse contrato social é uma fantasia que resolvemos chamar de “realidade”, uma fantasia como muitas outras. Somos seres formados por diversas fantasias; e tudo o que pensamos, fazemos e acreditamos está nessa instância das fantasias que fluem incansavelmente em nosso inconsciente. E segundo a psicanálise; temos fantasias que não são aceitas dentro dessa “realidade”, então criamos um período onde é possível transformar um pouco a realidade e dar mais liberdade para as fantasias recalcadas em nosso inconsciente, um desses períodos é o ...
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A busca pela inexistência: um desejo humano Certa vez, o filósofo Albert Camus afirmou que “ Só existe um problema filosófico realmente sério: Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia.” O assunto da busca pela inexistência é um assunto muito importante para a filosofia; e como o absurdista Camus disse, é questão fundamental. Mas como tocar em um assunto tão espinhoso? Como falar de uma coisa deveras fantasmagórica em nossa sociedade? A busca pela inexistência é um tabu e uma questão filosófica das mais instigadoras. Nos parece que, dentro da filosofia, o caminho mais desimpedido para falar desse assunto; é o caminho dos filósofos do desejo, já que a mitologia da razão e o logocentrismo não conseguem dar conta desse tema. O problema filosófico da busca pela inexistência é algo que nos gera uma verdadeira agonia, algo que nos deixa sem fôlego, um objeto que possuí uma grande carga de tabu, segredo e mistério. Dizem, em geral, que...
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                                                                               Fotografia: Ricardo Barreto (@rbfoto) CAOS Caos na mitologia é o nada, a instabilidade, a falta de um chão, seu contrário é Gaia a terra, a estabilidade. Caos é a queda livre, o abismo. Em certo sentido, uma boa parte da vida é o Caos, quando da falta de controle, dentro da rede de acontecimentos e de influências, da trama de afetos, dos diversos rumos que a cada instante a vida pode tomar, de acordo com decisões que, segundo acreditamos, estarão nos levando para um azimute que traçamos, para chegarmos a um ponto que acreditamos ser o melhor destino possível para nossa existência. . Esse ponto, porém, não é garantido, nem tampouco temos a certeza de que seria o melhor. Na verdade...
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                                                      Caravaggio - "Narciso" Eu? A crença rasa de que o ser humano é dotado de um poder que o permite entender a si e seus atos é a crença que sustenta a existência disso que chamamos de teatro social. Chamo de crença rasa pois encontra contradições em suas próprias condições, como veremos: é uma crença que vai contra as evidências demonstradas pela própria experiência. Digo que o teatro social é fundamentado por ela pois é através dessa certeza um tanto confortável que moldamos tudo aquilo que chamamos de “minha vida”. É como se no meio de todo esse complexo processo de existência fôssemos agraciados com a capacidade de entendê-lo e de, além disso, controlá-lo. Só através dessa pretensão é que se pode falar de uma “minha vida” como sendo uma ú...
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  Em todo lugar ao mesmo tempo A vida está em um constante criar e recriar determinado pelas disputas de forças que se dão dentro do ambiente, e que tem em seu fundamento o desejo. De certa maneira, no Nascimento da Tragédia, diria Nietzsche que a arte demonstra-se como a expressão mais essencial do resultado dessa disputa, dado que a vida é uma expressão; transborda a todo momento e deixa escapar através do que se cria, em sua própria autocriação. Não existe uma cabine de controle, um centro de comando dentro da cabeça de cada um que vai reger uma racionalidade e permanecer produzindo pensamentos que vão nos direcionar. A realidade é sentida e percebida, gerando cada reação. A racionalidade é vista como algo intrínseco ao humano:  estamos a todo momento pensando porque somos ontologicamente seres pensantes. Porém, como a Arte pode ser entendida nessa relação do desejo? Toda atividade artística tem um pouco de escrita, pois tal como esta, suas produções assumem um carát...
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Os Elefantes  A imagem de elefantes é bem recorrente nas obras de Salvador Dalí. Nesta, podemos ver fortes e ferozes elefantes em um fundo vazio, de cores quentes, com chão cor de argila. Culturalmente os elefantes remetem a características majestosas, de poder e força, mas, principalmente, por serem animais dos mais racionais. Partindo, pois, dessa obra, “Os Elefantes” (1948), pode-se desconstruir essa visão retratando-os como majestosos, porém dotados de pernas finas, quebradiças, com tendência a não suportar sua imponência – análoga à razão. Primeiramente, quero fazer referência à cultura da razão – concebida com a Filosofia tradicional e a religião, mantendo-se até os dias atuais – onde se tem a razão como intrínseca, majestosa e irrevogável.  Compará-la, neste caso, ao elefante bravo, grande, íntegro e coberto pelos lençóis da sapiência, seria um erro. Porque, nota-se: seus pilares são finos, esponjosos e falíveis. Ademais, o que se pode dizer da razão não seria nem compa...
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Um abalo na história da Filosofia  Whitehead, em Processo e Realidade, diz que "a filosofia, após os abalos que um filósofo a fez sofrer, nunca retorna a uma posição anterior”. É neste sentido que podemos compreender o ato poderosíssimo e subversivo dos filósofos do desejo, que, ao retirarem o privilégio da razão e da consciência, produziram choques, colisões e fissuras na imagem do mundo legada pelo pensamento metafísico tradicional, levando-o ao seu esgotamento e à necessidade de criar um novo solo. Podemos identificar na filosofia de Schopenhauer o processo embrionário de um pensamento do desejo, colocando como proposição central que "a vontade é o princípio fundamental da natureza". Ao contrário de Hegel, cujo ambicioso programa intelectual concebeu uma racionalidade intrínseca à realidade, para Schopenhauer o mundo como vontade é cego e irracional; ele não se submete à razão e às formas racionais do consciente.  Com efeito, a razão – essa faculdade tão privilegiada ...