Fotografia: Ricardo Barreto (@rbfoto)


CAOS


Caos na mitologia é o nada, a instabilidade, a falta de um chão, seu contrário é Gaia a terra, a estabilidade. Caos é a queda livre, o abismo. Em certo sentido, uma boa parte da vida é o Caos, quando da falta de controle, dentro da rede de acontecimentos e de influências, da trama de afetos, dos diversos rumos que a cada instante a vida pode tomar, de acordo com decisões que, segundo acreditamos, estarão nos levando para um azimute que traçamos, para chegarmos a um ponto que acreditamos ser o melhor destino possível para nossa existência.

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Esse ponto, porém, não é garantido, nem tampouco temos a certeza de que seria o melhor. Na verdade, de acordo com o que vou expor, não só será muito pouco provável a chegada, quanto o resultado previsto.
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Nossa existência é vivida em meio a uma rede, e devemos pensar essa rede não como fios fixos, que vão se cruzando em determinados pontos. Melhor seria pensá-los como tentáculos maleáveis, em que os pontos podem mudar, de acordo não só com seu próprio movimento, mas com o resultado das forças que podem movê-los. E esse movimento altera os pontos de partida com os quais traçamos nossos planos, alterando todo o restante da sequência de acontecimentos.

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Se admitirmos, como propõe Espinosa, que somos constantemente modificados por afetos, não só por outras pessoas, mas por todo tipo de forças, como vento, calor, mal e bom humor dos que nos rodeiam, essas forças não só nos afetam, como alteram a sequência de acontecimentos em nossas vidas.
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Epicteto, mendigo e sábio romano, dizia que controlamos cinquenta por cento da nossa vida, e sobre os outros 50 não temos o menor controle, assim como também não temos a menor ideia do que nos acontecerá. Se levarmos em conta que dentro dos 50 por cento que nos cabe, não são integrais, que boa parte do que pensamos e sentimos não controlamos também, o que realmente controlamos é muito pouco.

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Contemplar da borda desse buraco negro o caos evidente e eminente não é nada confortável. Dentro dessa linha de pensamento, fica claro a absurda singularidade que somos. Cada um de nós é uma rede infinita de possibilidades. A cada decisão, ou mesmo a cada olhar, o que contemplamos tem o potencial de modificar aquele destino que acreditamos ter traçado lá atrás. Modificar completamente o resultado. E se pensarmos, que a cada instante temos 360 graus de possibilidades de mudar o rumo e seguirmos por outro caminho, e as outras 359 possibilidades a cada instante? Dariam que resultado?
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Voltando à ideia de rede, nem mesmo sabemos quantos são os fios (ou tentáculos). Existem fios que nem mesmo sabemos da existência, e são igualmente incontáveis. Movendo-se, cada um deles a cada instante vai alterando a resultante e quanto mais o tempo passa, maior é a diferença do resultado.

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Somos um resultado único, como o desenho da nossa digital. A forma que suas linhas tomaram, o traçado na pele, é resultado do mesmo acaso do movimento dos fios da rede em que estamos. O DNA quando determinou seu desenho estava mergulhado nesse mesmo caos.

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Texto de Ricardo Barreto (@rbfoto)

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