O NADA


Quando há uma investigação consciente, abrindo um passo de cada vez, usando o pensamento nessa busca por um ‘eu’ e com a razão como instrumento dessa pesquisa, pode-se chegar ao porquê desse eu. Nas meditações, Descartes, com o método da dúvida hiperbólica, duvida até da própria existência e chega à conclusão de que, quando duvida, pensa, e pensando, existe. Quem pensa é um ‘eu’. É uma limitação pensar a realidade somente através de um cogito. Poderíamos pensar em uma liberdade sem essa base, essa certeza de um eu. Pois é, que eu é esse? Assim se cria o mito da razão.  

        Ao pensar o ‘nada’ (usando o pensamento oriental de Nishitani, que traz o conceito de Niilismo, onde afirma-se que através de uma busca e seguindo essa investigação através do limite da coragem. Quando há o rompimento com esse limite, há o esvaziamento da consciência) ele descreve como um grande branco do nada é estar na ausência de qualquer referência, seja material ou de pensamento, no esvaziamento total da consciência. Talvez uma imagem seria um deserto branco, uma aridez absoluta, onde perde-se a referência de horizonte. Não um buraco ou abismo, mas um ‘grande branco’, um vácuo. Onde nem mesmo o próximo passo à frente se enxerga um chão para se pisar.

       Porque não está colocada nem a direção do próximo passo a se dar. Tem-se 360º de possibilidades, qualquer direção é possível, mas isso ainda não mostra o quanto assustador é o encontro porque, ao olhar para trás, também não há um caminho percorrido. Ali, onde deveria ter uma história, um passado, não há nem mesmo um chão de base para os pés. Para o ‘eu’ racional que julgamos estar no controle, que tem uma história por trás e um futuro pela frente, esse personagem que montamos está aguardando a próxima pulsão, a próxima vontade para ver a direção que se seguirá. Essa possibilidade pode ser assombrosa ou surpreendente.

Não é a possibilidade de o cogito de Descartes estar nessa busca, mas é atravessar essa instância, esse degrau. É superar a razão e a representação, é ver o real presente no momento, no instante em que o cogito é superado.

Sob outro ponto de vista, como será essa ‘volta’ de ver a existência como ela é? O "eu" racional e sua nova convivência com o "eu" depois dessa experiência de se sentir na presença do nada absoluto? Como pode ser a existência depois da experiência de se perceber como espectador, como passageiro em um navio em que se julgava no controle? Ou, vendo de outro modo, a superação desse embaraço colocado pelo ego de estar no controle, de se colocar na estratégica posição de um mero ser dentro de toda a humanidade. E assim, absolutamente livre.


Texto e imagem de: Ricardo Barreto (@rbfoto)

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