A busca pela inexistência: um desejo humano


Certa vez, o filósofo Albert Camus afirmou queSó existe um problema filosófico realmente sério: Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia.” O assunto da busca pela inexistência é um assunto muito importante para a filosofia; e como o absurdista Camus disse, é questão fundamental. Mas como tocar em um assunto tão espinhoso? Como falar de uma coisa deveras fantasmagórica em nossa sociedade?
A busca pela inexistência é um tabu e uma questão filosófica das mais instigadoras. Nos parece que, dentro da filosofia, o caminho mais desimpedido para falar desse assunto; é o caminho dos filósofos do desejo, já que a mitologia da razão e o logocentrismo não conseguem dar conta desse tema. O problema filosófico da busca pela inexistência é algo que nos gera uma verdadeira agonia, algo que nos deixa sem fôlego, um objeto que possuí uma grande carga de tabu, segredo e mistério. Dizem, em geral, que não podemos falar da busca a inexistência, nos ensinam que o ato de buscar a inexistência é algo pecaminoso, nos dizem que os que procuram isso não herdarão o reino dos céus.

Na doxa, o assunto da busca pela inexistência, carrega uma culpa cristã, até o ato de pensar no assunto é imperdoável. Mas como estudante de Filosofia, compreendo que a Filosofia é o lugar do questionamento. Coloco-me, portanto, em posição de pensar sobre tudo. Então, nesse texto, quero investigar filosoficamente esse assunto espinhoso, duro, um assunto em que o silêncio tende a ser mestre absoluto. Vou utilizar a lente do desejo, renunciando à tradição logocêntrica da Filosofia. Pensarei guiado pela filosofia do desejo, aquela que enxerga o mundo como vontade, vontade de poder, pulsão e desejo.

A priori, quero deixar claro que a busca pela inexistência é uma questão de saúde psicológica e que caso você esteja passando por problemas psicológicos e pensa em cometer esse ato, você deve procurar um profissional da área da saúde psicológica, ou o Centro de Valorização da Vida, precisa procurar alguma ajuda qualificada. Esse texto não é sobre saúde mental, ele é pura e estritamente um texto filosófico, o levantamento de uma ideia, uma questão que martela a minha existência. Esse desejo que (des)governa tudo e que pulsa sem parar, me fez sentar no calor infernal do Rio de Janeiro, em uma sexta-feira, para pensar sobre o quanto a busca pela inexistência é um ato humano, demasiadamente humano.


Minha ideia para esse texto surgiu após refletir sobre momentos em que a ideia da busca pela inexistência tocou o meu pensamento de forma muito rápida. Tão rapidamente como o vento beija o nosso corpo em dias de verão no Rio de Janeiro, esse pensamento passou pela minha cabeça, eu estava no alto de um prédio e a ideia de buscar a minha inexistência se apresentou para mim, em forma de desejo. Rapidamente ela desapareceu, muito rapidamente. Conversando sobre esse assunto espinhoso com alguns amigos e colegas, eu percebi que esse desejo de buscar a inexistência também dançou da mesma forma com eles, uma valsa muito rápida, um desejo que apareceu e desapareceu. Isso gerou o desejo filosófico de escrever sobre o assunto. Será que filosoficamente podemos enquadrar essa busca como um desejo? Como algo natural da espécie humana e talvez até de outras espécies, como entre os animais não humanos?

Temos casos de busca pela inexistência entre as baleias, cachorros, gatos, cavalos, e em outros bichos ao redor do mundo. Esse desejo que nos acomete também acomete os animais não humanos, pois como dizia Schopenhauer, o mundo e seus seres, são movidos pela vontade (desejo), esse perpassa tudo e tudo se dá por conta dele. Tanto é que no século XIX, um jornal da capital britânica, o Illustrated London, colocou em suas páginas uma história completamente curiosa, sobre um cachorro que buscou a sua inexistência, entrando em um rio e ficando imóvel esperando a morte chegar. O cachorro foi retirado do rio uma vez e rapidamente foi correndo de novo para o rio, para afundar. Testemunhas disseram que o cachorro entrara no rio e ficara com as patas imóveis, assim como da primeira vez. Temos relatos de conhecimento público, em jornais da época, de um pato que se afogou de propósito e de uma gata que tirou a própria vida enforcada em um galho, após a morte de seus filhotes. Aristóteles, grande filósofo grego, no livro “História dos animais” livro IX, também relatou a busca pela morte de um animal não humano: no caso, um cavalo que se tacou de um penhasco, após ter sido obrigado a acasalar com a própria mãe. O estudioso grego Claudius Aelian, citou 21 casos de buscas pela inexistêcia em animais, vemos isso em um livro que aborda entre muitos temas do reino dos animais não humanos também o tema da busca pela inexistência; esse livro se chama “De natura animalium”.

O caminho desse texto passa pela estrada dos pensadores do desejo, ou seja, passa longe da tradição que enxerga o ser humano como um animal que é movido prioritariamente pela razão, como um arauto da razão. Em nosso texto estamos pensando o ser humano como um arauto do desejo, dentro de uma tradição onde pensaram Arthur Schopenhauer, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e diversos outros pensadores. Schopenhauer, em “O mundo como vontade e representação”, pensou e criou o conceito da vontade. Esse pensador inaugurou uma nova tradição, a tradição dos pensadores que enxergam o mundo pela lente do desejo. Tal reviravolta foi muito importante para a elaboração do conceito de vontade de poder, criado por Nietzsche em “Assim falava Zaratustra”. Essa tradição desembocou em Freud e na criação da psicanálise. Sigmund Freud iniciou a tradição psicanalítica norteada pelo conceito central de pulsão. O desejo é a pedra basilar do edifício psicanalítico.

O campo filosófico onde mora o pensamento do desejo é um espaço de desconstrução dentro da Filosofia. Esses pensadores são necessariamente filósofos da desconstrução, pois desconstroem uma lógica logocêntrica. A Filosofia do desejo subverte todo um horizonte do pensamento que trabalha com uma visão deturpada, onde o ser humano é um ser guiado pela razão. O desejo toma a centralidade de nossas ações e nos aparece como um motor filosófico. Usamos o desejo como uma lente para vermos o mundo.

Compartilhamos enquanto sociedade a crença errônea que somos seres extremamente racionais e que essa racionalidade nos guiou. Mas será mesmo que somos movidos pela razão? Por que escravizamos pessoas durante tantos séculos? Por que fazemos guerra uns com os outros? Por que tomamos os territórios dos outros? Por que promovemos diversos holocaustos em diferentes períodos históricos da humanidade? Será que todas essas ações foram promovidas com base em nossa racionalidade? Ou será que não estamos deixando passar algo? Estamos deixando passar aquilo que nos move: o desejo. Esses pensadores do desejo dentro da filosofia foram corajosos em bater de frente com a tradição racional, e não só bateram de frente, como abalaram as estruturas do edifício racionalista.

Os dois conceitos centrais para pensar a busca pela inexistência como um desejo são: a vontade, conceito filosófico elaborado por Schopenhauer e o conceito de pulsão de morte, criado por Freud. O conceito de vontade dentro da Filosofia de Schopenhauer nos aparece como aquilo que nos mobiliza, algo que move todas as nossas ações, uma força universal que co-move todos os seres existentes. Já no conceito psicanalítico da pulsão de morte, trata-se de um movimento fundamental que busca o retorno ao inorgânico, ou seja, o retorno ao lugar onde o sofrimento não é mais presente, onde nem mesmo a existência é presente; é um lugar sem desejos, onde o sofrimento de desejar e não conseguir realizar esse desejo não existe. O inorgânico é um lugar onde o sofrimento não existe de nenhuma maneira. É análogo ao Nirvana búdico, como diz o próprio Freud. O sofrimento nesses dois pensadores está no fato de sermos seres desejantes e que muitas vezes não conseguimos nutrir nossos desejos e por isso sofremos. Pensando a pulsão de morte como um desejo de retorno ao inorgânico, percebemos que o ato saltar na inexistência pode estar ligado ao desejo de não querer mais sofrer com a ausência de realizações desejantes, então o inorgânico se apresenta como um oásis em meio a um deserto de sofrimento.

Precisamos pensar o retorno ao inorgânico sob o ponto de vista desses pensadores do desejo, porque essa é a única forma de enxergarmos o assunto de modo mais amplo. A Filosofia da razão tem um olhar contaminado sobre o assunto, essa contaminação é oriunda de uma filosofia escolástica proveniente dos pensadores da idade média; onde o pensamento filosófico foi guiado pelo leme da igreja católica. Esses pensadores utilizando de um olhar teológico colocaram esse tema no espectro do pecado e assim o condenaram. Temos nesse ato o início de um tabu que dura séculos. Com a filosofia do desejo podemos trazer o assunto novamente para o debate público, pois enxergamos a busca pela inexistência como um desejo e sendo um desejo; algo natural do ser humano, que precisa ser debatido.

Agora que colocamos essa busca pela inexistência como um desejo como qualquer outro, precisamos falar do ato em si. Esse ato é necessariamente incompleto em sua natureza pulsional, pois ele não encontra a satisfação, não encontra a catarse, não se depara com o gozo. O problema é que ao buscar a realização desse desejo, você não estará vivo para gozar a satisfação de concluir o desejo, no caso, você desaparece antes de gozar, como nos mostrou o grande filósofo estoico Epicuro, na carta a Meneceu: “o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos.” Ou seja, o desejo de morrer, de retornar ao inorgânico, é um desejo que é incapaz de chegar à sua satisfação; se morrermos, não estaremos aqui para saborear a satisfação de um desejo realizado.

Na cultura, o assunto da busca pela inexistência é amplamente abordado, seja em músicas, filmes, séries e também na literatura. Um exemplo de um livro que tem o tema da busca pela inexistência como norte, e que fez muito sucesso na época em que foi lançado; entrando para a História da literatura; foi; “Os sofrimentos do jovem Werther”; trata-se de um romance de Johann Wolfgang Von Goethe. Nesse romance temos um jovem que, desiludido no campo do amor, acaba se matando. Temos no Brasil a banda de rock Legião Urbana, que em um de seus maiores sucessos, canta a narrativa de uma busca pela inexistência em “Pais e filhos”. Na mitologia, também temos essa temática da busca a inexistência presente, como é o caso do mito de Ajax, herói da mitologia grega, que teve o seu fim em um retorno ao inorgânico. Na cultura e na arte essa busca pela inexistência é um assunto recorrente. Nesses lugares questões filosóficas e os desejos humanos encontram morada, a busca pela inexistência é um desejo e uma questão filosófica, por isso é algo presente recorrentemente, no campo artístico e cultural.

Analisando filosoficamente, vimos que a busca pela inexistência é um desejo, que é algo natural da máquina desejante que é o ser humano. Vemos que como qualquer outro desejo e assunto filosófico, essa busca encontra reverberação na arte e na cultura. E sendo um desejo, será que não está na hora de falarmos mais sobre ele, sem uma culpa cristã? Acho que temos que dispersar essa neblina que tomou conta desse assunto, temos que falar dessa vontade (desejo) de retorno ao inorgânico, assim como falamos de outros desejos. Talvez o ato de falar ajude a diminuir o número gigantesco de mortes oriundas da busca pela inexistência que temos no mundo. Talvez falando o sujeito fique mais à vontade, de pensar filosoficamente, e talvez assim procure uma ajuda no campo da saúde psicológica. Precisamos vencer o silêncio. Acredito que precisamos enxergar a busca pela inexistência como um desejo, como um ato humano, como algo de nossa feroz chama pulsional desejante.


Texto por: Gabriel Pablo Freitas de Lima (@filo.analise)

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