Em todo lugar ao mesmo tempo


A vida está em um constante criar e recriar determinado pelas disputas de forças que se dão dentro do ambiente, e que tem em seu fundamento o desejo. De certa maneira, no Nascimento da Tragédia, diria Nietzsche que a arte demonstra-se como a expressão mais essencial do resultado dessa disputa, dado que a vida é uma expressão; transborda a todo momento e deixa escapar através do que se cria, em sua própria autocriação. Não existe uma cabine de controle, um centro de comando dentro da cabeça de cada um que vai reger uma racionalidade e permanecer produzindo pensamentos que vão nos direcionar. A realidade é sentida e percebida, gerando cada reação.

A racionalidade é vista como algo intrínseco ao humano:
 estamos a todo momento pensando porque somos ontologicamente seres pensantes. Porém, como a Arte pode ser entendida nessa relação do desejo?


Toda atividade artística tem um pouco de escrita, pois tal como esta, suas produções assumem um caráter de significação que não é autodeterminante, seus resultados passam a não corresponder ao que lhe foi atribuído inicialmente, procura novas formas de se expressar, fugir daquilo que está ali visível de primeira. Criar um novo mundo é tentar estabelecer que não existe uma regra de criação, quebrar com as barreiras e ir muito além. Produzir arte é saída, movimento de erupção daquilo que está preso e se acumulando. Por isso muitas pessoas dizem que enlouquecem sem a arte, por que é preciso extravasar o desejo que é jogado para dentro como algo coadjuvante ao juízo.

A quebra com a racionalidade é dolorosa. Se ensina para as crianças já na escola que o ser humano se diferencia dos outros animais através da razão: pensamos e por isso somos humanos. É um processo doloroso ver que funcionamos instintivamente assim como qualquer outro animal na natureza. É retirar da crença e quebrar um alicerce que dava segurança para continuar e seguir a vida.

Quando a arte tenta demonstrar essa quebra, acaba caindo em lugares que nunca foram explorados antes. Um exemplo disso é o filme indicado ao Oscar “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”. A base da racionalidade explorada no filme é feita a partir de se perguntar “e se”; e se eu tivesse dito sim ao invés de não, e se eu tivesse dobrado esse caminho ao invés de seguir reto, e se eu tivesse me tornado outra pessoa que não esta, será que eu seria eu mesma? O filme trata vários universos que funcionam de forma paralela e, em algum momento, a personagem principal consegue pular entre um universo e outro, começando a ver respostas para as perguntas até então estabelecidas.

Com a colisão da sua mente entre todos os universos, ela começa a ser todos os objetos, podendo ser ela mesma ou até mesmo uma pedra, em todos os lugares, já que os universos funcionam paralelamente em uma infinidade de universos. Ela pode ocupar qualquer espaço e tudo isso ao mesmo tempo. Assim, ao mostrar que a pedra pode desejar só andar ou estar perto de outra pedra que pode ser uma outra pessoa, que a racionalidade nada importa, por que tudo só funciona conforme se vive o momento, conforme cada um sente e expressa suas emoções. A existência é uma eterna expressão do desejo e pensar sobre ela é, em algum momento, estar no “e se”, que também pode ser qualquer lugar em qualquer tempo.



Texto de Lucas Cobra (@lucas_cobra)

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