Caravaggio - "Narciso"


Eu?


A crença rasa de que o ser humano é dotado de um poder que o permite entender a si e seus atos é a crença que sustenta a existência disso que chamamos de teatro social. Chamo de crença rasa pois encontra contradições em suas próprias condições, como veremos: é uma crença que vai contra as evidências demonstradas pela própria experiência.


Digo que o teatro social é fundamentado por ela pois é através dessa certeza um tanto confortável que moldamos tudo aquilo que chamamos de “minha vida”. É como se no meio de todo esse complexo processo de existência fôssemos agraciados com a capacidade de entendê-lo e de, além disso, controlá-lo. Só através dessa pretensão é que se pode falar de uma “minha vida” como sendo uma única coisa, altamente compreensível e comunicável. Como exemplo, penso naqueles momentos em que o indivíduo fala ou pensa algo como “minha vida é esta. Ela se dá dessa maneira e é assim que a levo.”, tratando-a como algo banal e como se estivesse sob sua posse.


É através dessa crença que se age através dos papéis sociais que enxergamos durante nosso cotidiano. Temos um nome, nos relacionamos com outros seres racionais, sabemos quem eles são, como agem, como poderiam agir. Além disso, saímos de casa para ir trocar nosso tempo de vida exercendo tal função para uma instituição ou empresa para que ela nos dê uma quantia de números aparentemente valiosos (dinheiro), que utilizaremos para fazer coisas completamente racionais como comprar um líquido cheiroso com o qual banhamos o corpo para termos o mesmo cheiro que uma flor específica. Sendo todas essas certezas ou atitudes apenas algumas das bizarrices que vivemos durante o cotidiano.

Entretanto, sabe-se que nada disso que se tem como fundamental é, de fato, fundamental. Nosso nome não é o que nos define e poderíamos ter outro sem deixar de sermos quem somos; não conhecemos os outros, assim como não conhecemos a nós mesmos; não sabemos verdadeiramente o porquê de nossas ações ou das dos outros; aceitamos a existência de algo tão estranho quanto uma empresa ou instituição e sequer entendemos por que fazemos coisas tão irracionais como comprar um perfume. Parece que em algum momento assinamos um acordo para agir normalmente perante todas as estranhezas provenientes da maravilhosa mente humana.

Basta analisar alguns dos absurdos do cotidiano para que enfim se entenda que o que fazemos e o que somos não é resultado de uma intenção racional: o que realmente nos move é o desejo. Toda e qualquer intenção é antes vontade do que razão. Voltando ao contrato de que falei antes: o assinamos por querermos, de fato, nos afastar dessa estranheza que nos causa esse desconforto, assim como fingimos existir um certo sentido por trás de todas nossas atitudes, unicamente porque queremos fugir do abismo que se abre ao aceitarmos o oposto. É dessa forma que o teatro social se fundamenta nessa vontade de ter uma certeza sobre o “eu” e suas atitudes, o que, em conjunto, constitui isso que se chama de “minha vida”.


Assim como um animal qualquer se esconderia dentro de uma caverna para evitar a chuva que o incomoda, o ser humano busca, em meio a tanta estranheza, esse abrigo interno que é a noção do “eu”. É a partir dessa certeza imediata da existência do “eu” que se forma tudo aquilo que constitui esse teatro social baseado na crença do monopólio da razão. Nascemos e logo em seguida já estamos por aí pensando e dizendo: “eu sou racional”; “eu penso dessa forma”; “eu entendo tal noção”; “eu conheço isto...”. Por outro lado, basta colocar em dúvida essa identidade imediata do “eu” para que tudo que se tinha como certo perca toda sua validade...


Texto por: Diego Mesquita (@deego_mesquita)


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