Imagem: Di Cavalcanti - Carnaaval na rua
O carnaval visto pela lente da Psicanálise
Somos seres que vivemos e sustentamos um pacto social vigente, esse pacto vira uma “realidade” no momento em que somos guiados por ele. Esse contrato social é uma fantasia que resolvemos chamar de “realidade”, uma fantasia como muitas outras. Somos seres formados por diversas fantasias; e tudo o que pensamos, fazemos e acreditamos está nessa instância das fantasias que fluem incansavelmente em nosso inconsciente. E segundo a psicanálise; temos fantasias que não são aceitas dentro dessa “realidade”, então criamos um período onde é possível transformar um pouco a realidade e dar mais liberdade para as fantasias recalcadas em nosso inconsciente, um desses períodos é o carnaval.
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A festa do povo é um festival de fantasias contidas em diversos inconscientes que encontram capacidade de existir sem julgamentos de sábado até a quarta-feira de cinzas ao meio dia. O filósofo do desejo Friedrich Nietzsche no livro “além do bem e do mal”, nos falou sobre as fantasias enquanto condição existente dos seres profundos, na passagem; “Todo espírito profundo necessita de uma máscara”. Nessa passagem o pensador nos mostra que vivemos usando máscaras em diversas situações; posteriormente a Psicanálise nos mostrou que essas máscaras são fantasias diversas e em diferentes momentos e lugares e fazem parte de nossa existência.
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O carnaval é a época do ano onde um fenômeno muito singular acontece; as fantasias tomam conta das ruas em uma atmosfera onde a instância responsável pelo recalque é de certa maneira afrouxada, a realidade muda temporariamente dando espaço a uma realidade momentânea muito menos patrulheira; onde a ideia de ser o que se deseja ser é possível. Um dos grandes pensadores da humanidade, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, nos deu uma lente potente para enxergarmos o mundo. Usarei essa lente pra fazer uma leitura do carnaval. Na passagem de Freud no texto “Psicologia das massas e análise do eu”, texto de 1921, em que Freud nos diz; “O indivíduo, na massa, encontra-se colocado sob condições que lhe permitem se livrar dos recalcamentos de suas moções pulsionais.” Nessa passagem, vemos que o carnaval por ser um fenômeno das massas, encontra-se dentro dessa lógica.
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No carnaval o desejo é a porta-bandeira que carrega o escudo da escola de samba, acadêmicos das fantasias, o carnaval é a maior festa que temos no Brasil e nesse período as ruas são tomadas por pessoas vestidas como heróis, personagens da cultura pop e da política mundial. A fantasia geral é permitida e encontra respaldo para existir na existência da fantasia do outro; o carnaval é um polo atrator de fantasias recalcadas, que desembocam e encontram a sua liberdade nas massas eufóricas. É possível ser qualquer coisa que se deseja, o carnaval é o oásis das fantasias que não encontram passagem ao longo do ano. Nessa época do ano você pode andar vestido e dizendo ser o Batman, o Curupira ou Agostinho Carrara; ser qualquer coisa durante quatro dias, passeando pelo centro da cidade durante todo o período carnavalesco. Mas, se fizer o mesmo durante os dias não carnavalescos, será tido como um louco. Seria tido como um maluco por não ter o respaldo das massas e por estar fora da “realidade” onde isso seria aceito, o julgamento moral seria extremamente pesado sobre você. Após o carnaval, a realidade volta a ser menos tolerante e algumas fantasias voltam a ser recalcadas em nosso inconsciente e esperam ansiosamente o próximo carnaval.
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Texto por: Gabriel de Lima (@filo.analise)

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