Imagem: Hieronymus Bosch - Os sete pecados capitais


O Big Brother: do vigiar e punir ao exibir e curtir


Big Brother é o líder supremo do totalitarismo absoluto idealizado por George Orwell no livro 1984. A obra mostra a plena realização daquilo que Foucault chamou de Sociedade Disciplinar: uma sociedade toda composta por instituições onipresentes baseadas em rígidos regimes de vigilância e punição – escolas, fábricas, quartéis, hospitais, manicômios, prisões. A obra de Bosch (Os sete pecados capitais) retrata o olho vigilante de Deus, grande modelo metafísico da Sociedade Disciplinar.

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Como nos lembra Foucault, a Sociedade Disciplinar forjou por um lado “indivíduos” – cada um com seu armário, cada um com seu quartinho, cada um com seu lugar na linha de montagem, cada um com seu documento de identificação – e por outro lado “massas” despersonalizadas – com seus uniformes, jargões e opiniões públicas.

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A sociedade disciplinar, com seus onipresentes esquemas de vigilância, criou uma sociedade de voyeurs. Sabendo que está sendo constantemente vigiado, cada um internaliza o olho da vigilância e passa a vigiar constantemente a si mesmo e aos outros à sua volta. Assim se formou uma sociedade de espectadores que passaram o século XX antenados na programação das rádios, colados nas cadeiras dos cinemas e, por fim, vidrados nos grandes espetáculos televisivos – novelas, filmes, desenhos, shows, telejornais e sitcoms.

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Numa espécie de inversão do mito da caverna platônico, a TV se tornou o “mundo ideal” e cada um cresceu sonhando em ser como seu personagem favorito.

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Por muito tempo, os filhos da Sociedade Disciplinar devem ter valorizado seus recantos de privacidade e intimidade acima de tudo. Assim como Winston, no 1984, valoriza o cantinho onde pode escrever seu diário e o quartinho onde pode ter relações afetivas genuínas.

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Eis que em 1909, uma reviravolta no mundo do espetáculo privou todo um grupo de pessoas de seu sagrado direito à privacidade. Florence Lawrence, uma jovem atriz de 23 anos, promoveu um golpe publicitário: seu marido e diretor divulgou que a moça havia morrido em um acidente automobilístico, mas eis que ela aparece viva e bela num festival de cinema para divulgar seu próximo filme! O sucesso do filme provou que o público se mostra mais disposto a consumir as obras dos artistas com os quais se identifica. Florence se tornou a primeira estrela de Hollywood e desde então as estrelas do showbiz tiveram suas vidas pessoais invadidas e minuciosamente publicadas.

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Então veio o século XXI e uma incrível invenção tecnológica veio realizar o sonho daquelas gerações de espectadores que cresceram querendo ser como suas estrelas de TV favoritas. Nas redes sociais cada pequeno indivíduo insignificante daquela massa sovada pela sociedade disciplinar pôde se tornar a estrela da sua própria timeline.

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Freud sempre nos lembra que sadismo e masoquismo, amor e ódio, voyeurismo e exibicionismo constituem pares ambivalentes, isto é, para falar como MD Magno, constituem alelos de uma mesma banda de Möebius.

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Com as redes sociais, a sociedade voyeur tornou-se também a sociedade exibicionista, enquanto a “vigilância”, se é que ainda se pode chamá-la assim, foi inteiramente automatizada e deixada a cargo dos algoritmos.

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Estamos constantemente ex-postos ao público, publicando atualizações em tempo real do nosso status. Absolutamente tudo é material para exibição, das comidas e bebidas aos “looks” e “moods” do dia.

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Um claro indício dessa passagem do voyeurismo para o exibicionismo é o próprio Big Brother! De instrumento implacável de vigilância a reality show das pessoas absolutamente comuns que têm suas rotinas exibidas 24 horas por dia para uma legião de espectadores-voyeurs. A tele-tela de vigilância torna-se tele-tela de exibição. O homem comum que era visto, torna-se aquele que vê – e decide o futuro dos participantes.

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Mas por que voyeurismo e exibicionismo fazem tanto sucesso? Aldo Pedrosa, na sua bela tese Tecnoscopia: a necessidade de ver e ser visto na contemporaneidade indica com precisão a proximidade entre o espectador e o expectador:


A palavra espectador (com a letra “S”) tem origem no termo em latim spectatore e se refere a alguém que observa ou examina um acontecimento. Ela é sinônima das expressões testemunha, presenciador, assistente, ouvinte, observador, entre outras. O vocábulo homônimo expectador (com a letra “X”), por sua vez, advém do latim expectatore e diz respeito a alguém que tem a expectativa de que alguma coisa aconteça. Não seria, então, o sujeito voyeurista um es(x)pectador em ambos os sentidos? Uma resposta afirmativa é válida porque o voyeur é espectador (observador) de uma cena enquanto possui a expectativa (expectador) de que aquilo que tanto deseja ver se revele.”


O espectador é sempre também expectador… ele espera que a cena capaz de realizar seus desejos e fantasias mais íntimos finalmente se revele. Já o exibicionismo faz de cada um de nós o objeto de desejo do outro. Em ambos os casos, brilha a chama do desejo de onipotência: por um lado, o desejo de ter a onipotência da satisfação absoluta desejada, por outro lado, a onipotência de ser a satisfação absoluta que o outro deseja… Como a satisfação absoluta é Impossível, as timelines são infinitas…


Texto por: Diogo Bogéa

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