Imagem: Portinari - Palhacinhos na gangorra


Ela desatinou, viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando
Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando e ela inda está sambando
Ela não vê que toda gente
Já está sofrendo normalmente
Toda a cidade anda esquecida, da falsa vida, da avenida
Onde Ela desatinou, viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando
Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando e ela inda está sambando
Quem não inveja a infeliz, feliz
No seu mundo de cetim, assim
Debochando da dor, do pecado
Do tempo perdido, do jogo acabado”

Chico Buarque

.
O contraste entre a alegria sem medidas do carnaval com a "vida comum", fora do carnaval, mais regrada e sofrida é, talvez, um dos principais temas da obra poética de Chico Buarque, ao menos dos anos 1960 à 1980. Claro não deixa de ser a um cronista que o dispêndio livre de energia no carnaval, em direção ao gozo, contrasta com o regramento das necessidades civilizatórias do cotidiano. O carnaval seria algo como um grande gasto livre permitido, talvez não como subversão, mas absorvido pelas necessidades de dominição civilizatória-politica.

.
O que não deixa de ser curioso é que, malgrado a posição periférica do Brasil na hegemonia do poder, essa metáfora acaba por ser uma das mais descritivas da sociedade de mercado atual: com seus carnavais, não é pela repressão do gozo que o mercado age, mas pela delimitação de todo gozável legítimo e possível. Uma diferença fica clara: já não é mais o gasto livre de exceção um momento dentro da repressão civilizatória, mas um dos principais conteúdos de uma repressão que limita pela limitação das possibilidade de (gozar a) vida. Em última instância: tudo o que pode ser gozável, divertido, passa pela esfera do mercado e pela estética de sua produção e consumo.

.

Texto por: João Pedro Martins

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog