Imagem: Vitral da Catedral de Berna
 


Um profundo descontentamento

O mundo é nossa representação – diz Schopenhauer. O mundo é como um quadro da realidade. A esta obra dá-se tudo o que se deseja, tudo o que se possui psiquicamente. Algumas partes agradarão. Mas, infelizmente, a obra como um todo não. Isso porque nada no mundo é suficiente, sempre caberá mais uma pincelada, um contorno, uma cor, uma sombra, uma ideia, uma personagem. Buscar-se-á sempre algo mais, por excelência.

Por conseguinte, enquanto se pinta este quadro, há duas questões, no mínimo. A primeira: há exageros. Pode-se querer voltar atrás, apagar o que foi pintado. Porém, existem coisas que jamais se podem apagar; pode-se até pintar outra por cima – que não irá satisfazer plenamente –, mas aquilo que já foi, embora tenha-se tentado reparar, se tornou exagero. Eis que surgem os Traumas: fazer algo que acaba não agradando; pintar um quadro que nunca lhe trará uma satisfação. Em segundo, existirão coisas que não poderão servir a Deus e à Mamon, porque, eventualmente, se depara com questões em que há limite, há antagonismos. Por exemplo, entre o círculo e o quadrado; entre simétrico e assimétrico, luz e escuridão, sim e não, bem e mal. Diante desta regra, o que fazer?

Em meio a esta explosão de angústia de querer e não poder, eis que temos o entendimento da neurose – segundo Freud. Isto é, a expressão de um conflito entre desejos do nosso inconsciente. Neste caso o conflito se dá quando o neurótico foge da realidade; frustra-se ao saber que não chega a lugar algum, que não há um absoluto; ele cai perante a realidade de que não pode ser o todo. Estes são traumas psíquicos e isso faz com que os neuróticos os transportem para seus inconscientes – que já estão no limite. Por isso o neurótico foge da realidade, do cotidiano, do saber que não chegará a lugar algum, que não há um absoluto, uma finalidade, uma beleza plena e também que ele não pode ser o todo – o delírio expressa essas fugas.

Portanto, nem tudo irá agradar. Não há um mundo perfeito que, na verdade, nós mesmos projetamos. Até nisso é espantosa, angustiante nossa existência: no fundo, no que há de mais radical da nossa representação, há um profundo descontentamento.

Texto por: Silvio Luiz Matias - @silumatias


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog