Um abalo na história da Filosofia
Whitehead, em Processo e Realidade, diz que "a filosofia, após os abalos que um filósofo a fez sofrer, nunca retorna a uma posição anterior”. É neste sentido que podemos compreender o ato poderosíssimo e subversivo dos filósofos do desejo, que, ao retirarem o privilégio da razão e da consciência, produziram choques, colisões e fissuras na imagem do mundo legada pelo pensamento metafísico tradicional, levando-o ao seu esgotamento e à necessidade de criar um novo solo.
Podemos identificar na filosofia de Schopenhauer o processo embrionário de um pensamento do desejo, colocando como proposição central que "a vontade é o princípio fundamental da natureza". Ao contrário de Hegel, cujo ambicioso programa intelectual concebeu uma racionalidade intrínseca à realidade, para Schopenhauer o mundo como vontade é cego e irracional; ele não se submete à razão e às formas racionais do consciente.
Com efeito, a razão – essa faculdade tão privilegiada na história do pensamento ocidental – nada mais é, do ponto de vista schopenhaueriano, do que a superfície da mente, da qual sabemos muito pouco sobre suas profundezas. Não sem razão, pode-se estabelecer uma relação de proximidade entre a filosofia de Schopenhauer e o pensamento de Freud, visto que ambos os autores fazem parte de uma linha de investigação que coloca a dimensão pulsional no centro da reflexão.
Segundo Schopenhauer, todos os seres singulares são uma objetivação – em diferentes graus de complexidade – da vontade universal. Esta vontade, então, estaria em todas as coisas e no próprio movimento da realidade, como no crescimento de uma planta, no instinto animal e na conduta humana.
Mas então, se, como diz Schopenhauer, o mundo é governado por uma vontade, um querer cego e inconsciente, logo não há um propósito intrínseco a este mundo, um sentido de história, fundamentos absolutos, leis ocultas e dialéticas governando os processos reais. Sendo assim, os temas da razão e da consciência, tão proeminentes na tradição metafísica, não podem mais permanecer insuspeitos.
É possível dizer que Schopenhauer inaugura uma nova forma de pensar absolutamente singular e original na história da filosofia, que, ao retirar o privilégio da razão e da consciência e colocar a "Vontade" no centro da reflexão, abre um campo fértil de possibilidades para o surgimento de uma "nova mente", cujos desdobramentos foram procedidos pela filosofia de Nietzsche e pela Psicanálise.
Texto escrito por Esdras Guedes.
Comentários
Postar um comentário