A arte de Belchior pela lente da psicanálise; a sublimação como combustível da arte:



Por, Gabriel de Lima.



Belchior foi um dos artistas mais influentes de nosso país. A genialidade do artista tomou de assalto os corações de diversas gerações de apreciadores da música popular brasileira. Sua letra provocante e a sua voz marcante fizeram dele um ícone e o seu legado continua a inspirar novas gerações de artistas. No entanto, poucas pessoas exploram as obras de Belchior através da lente psicanalítica. Nesse texto, vamos analisar a arte e a música de Belchior através da psicanálise, usando o conceito de sublimação.


A sublimação está baseada na ideia de que os indivíduos têm desejos, fantasias e emoções inconscientes que não são aceitáveis socialmente. Mas, esses desejos podem ser canalizados para formas de expressão socialmente aceitáveis, tais como a arte de um modo geral, o esporte e a literatura. O pai da Psicanalise Sigmund Freud via a arte como uma forma de expressar conflitos inconscientes. A arte é a morada do caos criador e ela se nutre desse caos.


As letras de Belchior são conhecidas por sua verve poética e nelas fica latente como o artista trabalhava em suas músicas os questionamentos existenciais que nos co-movem. Através de suas letras o compositor explorou as complexidades das emoções humanas. Uma das canções mais famosas de Belchior, “como nossos pais” é uma pungente reflexão sobre as diferenças geracionais e a busca pela subjetividade. Nessa música, podemos ver como Belchior imprime a sua subjetividade em cada parte da canção, podemos apreciar como os seus demônios internos, questionamentos e desejos inconscientes encontraram potência para serem combustível criativo para uma obra de arte da cultura musical brasileira; isso é o conceito psicanalítico de sublimação em sua expressão mais bela.


A obra de Belchior é carregada de sublimação, assim como toda grande obra artística. Se não fosse a sublimação não teríamos a obra de Belchior. Também não teríamos os quadros de Van Gogh, esses que foram fortemente influenciados por suas lutas com perturbações mentais e assim a sua arte foi a forma que o artista encontrou para expressar o seu tumulto interior. Da mesma forma, as pinturas de Frida Kahlo foram um reflexo de sua dor física e emocional, e foram uma maneira de lidar com seus ferimentos e aflições.


Por isso é importante se utilizar a psicanálise como lente observadora sempre que formos pensar a arte. Talvez o universo artístico seja o lugar onde o edifício psicanalítico tenha fincado os seus vergalhões mais profundamente. É impossível fazermos uma análise artística completa sem passarmos por conceitos psicanalíticos, como por exemplo, o conceito de sublimação. É possível saborear a arte sem um prévio conhecimento psicanalítico, mas uma vez que se domina o instrumento psicanalítico, a apreciação fica muito mais potencializadora e fica possível perceber mais facilmente o agridoce da arte. Esse agridoce é condição primordial da obra de arte, é aquilo que te deixa maravilhado e que te soca o estômago, é o belo e a angustia do incômodo.

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