Fotografia de Ricardo Barreto
Razão?
Talvez possa-se afirmar que mais um motivo para a razão ter-se imposto como princípio supremo do modo como se vê o mundo, seja o fato dos povos que o dominavam em sua porção ocidental serem naturalmente mais racionais, terem como pressuposto o modo racional desde Descartes? Não somente por conta dele, mas ele fundamenta, cria um método para provar a existência de um eu racional.
Pelo modo como fomos colonizados, nossos princípios, ou fundamentais características, como modo de relacionar-se com o meio por exemplo, os povos originários tinham a leitura do ecossistema, a relação com a natureza de forma harmônica e não predatória, como diz a música: incapaz de maltratar uma fêmea ou poluir o rio e o mar.
A exploração que se deu, servia bem à aniquilação de uma possível outra forma de encarar o mundo, como por exemplo o uso da Vontade como alternativa, como forma de viver. Não servia ao conquistador abrir outra possibilidade de ver o mundo, que estava sendo movido por um capitalismo nascente e pujante.
As redes e conexões que então se formavam eram poderosas e em todas as classes. A Burguesia se impondo com o capital como o novo elemento de domínio com aval da serviçal Igreja. Essas redes apesar de se movimentar inclusive pelo acaso, esse elemento, não era percebido ou não era levado em conta, apesar de ativo nessa movimentação, tanto comercial, industrial, e nos descobrimentos.
Como saber o resultado, se uma outra opção, que não a do extermínio, ou escravidão, tivesse sido a escolhida? Se tivesse prevalecido a opção da integração, mútuo aprendizado, uma comum convivência pacífica, que resultado teria dado? Quem seriamos nós? Como estaria a evolução da humanidade?
Caímos na ideia do caos, que uma determinada escolha, que resulte em uma mudança de direção, altera para sempre o rumo dos acontecimentos, e esse resultado, na linha do tempo, vai ficando cada vez mais distante do possível caminho inicial, antes da escolha tomada. A sequência de acontecimentos, encontros, relações, ficam eternamente alteradas.
A aleatoriedade, consciente ou não, com que tomamos as decisões, por força de uma vontade que não temos ideia de onde vem, mas que fica alterando o rumo da vida, dos gostos, dos caminhos… Pensamos nossa Vontade como livre, mas absolutamente ela não é. Quando agimos, isso é apenas a consequência dessa Vontade. É o que Schopenhauer chama de fenômeno. Esse fenômeno é a parte “visível” da Vontade. E a razão só pode ser aplicada a esse fenômeno, e não à Vontade, sua verdadeira causa.
Essa vontade, única soberana sobre nossos atos, que tem por única finalidade ser satisfeita, é o quesito que não levamos em conta, que não refletimos, que não se tem consciência, que é o único motivo dos acontecimentos. Schopenhauer dizia que “a vontade é um cego robusto, que carrega um aleijado que enxerga”, onde o cego, com a sua finalidade de satisfação, carrega o aleijado. Temos a possibilidade de agir, mas sem sabermos a causa. Qual o resultado dessa equação?
Então voltando, depois dessa viagem, à questão inicial, a racionalidade estava no controle? Esse pressuposto da razão, quanto a ser a direção que vai dar o azimute, o rumo da decisão tomada é mesmo válido? Havia realmente uma razão no controle?
A ideia não é de forma alguma passar pano nos crimes cometidos, em nome dessa razão, em nome de uma possível civilidade, mas desvelar a possibilidade da racionalidade não dar conta de explicar o mundo e a dificuldade da existência.
Texto por: Ricardo Barreto (@rbfoto)

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