Imagem: Arranha céus e túneis. Fortunato Depero

Não deixa de ser curioso o quão abertamente paradoxal é o fato de que a justificativa última da nossa realidade para cada ação é a busca da felicidade quando, na organização do cotidiano, a felicidade parece ser uma das últimas coisas a serem perseguidas. O cotidiano não parece ser construído em volta da ideia de felicidade, mas sim de produtividade.

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A prioridade do nosso cotidiano, então, parece ser organizada com máxima atenção para a produtividade, geralmente realizada por meio do trabalho. É assim que organizamos nossos dias, a começar por dias úteis (ou dias de semana) e final de semana ou dias de folga (geralmente em menor número).

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Dentro da organização desses dias, e também dos planos anuais, semanais, mensais, a divisão dos horários e estipulação do tempo parece sempre priorizar a produtividade, para a qual geralmente se corre para não atrasar porque é o horário mais fixamente estipulado para o dia.

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As necessidades do corpo geralmente são encaixadas dentro desses horários como interrupções, como intervalos (lanche, almoço, jantar, café, ir ao banheiro). A manutenção dessas necessidades geralmente se dá como em exceções necessárias para que o corpo possa funcionar como se deve durante todo o expediente.

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Fora isso, há também uma série de produtividades "satélites", que geralmente são realizadas com o intuito de deixar a produtividade principal seguir imperturbada (como fazer comida, arrumar a casa, tomar banho, se arrumar tendo cuidados de higiene, etc.) Assim sendo, depois de tudo, pode haver o horário do "bom descanso", uma palavra extremamente apropriada para o que ela geralmente é: um momento condicionado como sendo o de recuperação de um cansaço já realizado, um canso-descanso (geralmente para se cansar de novo).
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Isto dito, e levando em consideração que é culturalmente repetida a perspectiva de que quase ninguém de fato gosta do trabalho, sobra a indagação: para quê? E quando sobra a tal desejada busca pela felicidade? De qualquer forma: porque ela ainda se mantém como justificativa de tantos e tantos atos e decisões pessoais quando parece tão espremida, esporádica e comprimida pela busca diária e cotidiana da realização da produtividade em bases quase sempre regulares e maximizadas?
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Isto não é novidade nem precisa ser, de fato, nenhum enigma, mas bastaria ainda perguntar porque a busca da felicidade como definição segue ainda tão imperturbada quando obviamente não se sustenta. Poderia se objetar que é possível ser feliz no trabalho, mas mesmo o trabalho, quando é feliz, não parece organizado para proporcionar felicidade e não pode ser pausado quando não mais proporcionar - não pode muito provavelmente porque segue indicadores de produtividade, e não de felicidade.
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Por que o paradoxo entre as duas coisas se mantém? Por que uma não exclui a outra?


Texto por: João Pedro Martins

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