Imagem por: Adina Voicu

A rede complexa do Real


Ao pensamento cabe a tarefa de pavimentar novas rotas, questionar velhas formas e composições falidas que, até pouco tempo, sustentavam o nosso mundo. Sim, aquele mundo que parecia fixo e seguro, no qual supostamente navegávamos sem tempestades, com o céu límpido e reluzente. Esse mundo esgotou-se e encontra-se em estado terminal.

Os saudosistas do velho mundo, perdidos com o ruir de seu porto seguro, invocam o purgatório e condenam ao inferno todos aqueles – seres híbridos, mestiços, derramados e processuais – que não cansam de emergir à superfície e se revelar.

Pelos valores, pelo bem, pela verdade e nada além da verdade (invariantes fixos), condenam, julgam e se vingam da realidade. Esses saudosistas do céu perdido precisam apagar os desvios e as veredas bifurcantes. Eles temem perder um mundo que já não se sustenta em pé, pois têm pés de argila.

Tudo se turva, se desfoca, se mistura, se atravessa, abrindo novas possibilidades. As linhas se entrecruzam na rede complexa do real, sem centro, sem direção, sem fundamento absoluto.

Quantos eus, faces, sentidos podem caber nesse corpo, nesse mundo? O que pode um corpo? Quantas vozes, desejos, devaneios podem compor a música dos processos reais? Quais traços, cantos, encantos, invenções e novos possíveis podem emergir?


Texto por: Esdras Guedes (@mancini.esdras)

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