Por que?
Por que é que agimos da maneira que agimos? Por que acordamos todos os dias para fazer o que fazemos todos os dias? O que é que nos impulsiona a fazer isso que chamamos de “viver? Basta pensar por pouco tempo para chegar à conclusão de que tudo o que fazemos são coisas meramente contingentes, ou seja, tudo poderia ser de outro modo: poderíamos não nos levantar, poderíamos não tomar um café, poderíamos não ir trabalhar... mesmo assim, seguimos agindo como se existisse um “dever” que nos chama, que nos direciona a fazermos o que fazemos. É por isso que constantemente estamos fazendo coisas para as quais acreditamos existir todo um leque de motivações altamente racionais: fazemos porque é o que devemos fazer, acreditamos que não poderia ser de outra maneira.
Entretanto, se é tão certo que devemos trabalhar, estudar, nos comunicar, amar e viver, por que nos assombramos com a questão com a qual abri o texto? Ora, se fosse algo necessário e altamente racional fazer isso tudo, não teríamos uma questão dessa profundidade; ela sequer existiria, já que obviamente trabalhamos pois queremos ter uma renda ou porque precisamos de uma vocação e estudamos por precisarmos de uma base de conhecimento para podermos viver plenamente em sociedade.
Mas a questão existe, e além de existir, assombra todos nós nos momentos em que colocamos a cabeça fora desse grande cotidiano que somos, de certo modo, forçados a viver. E se a questão existe, é porque os absurdos cometidos em nome da razão não são tão sustentáveis quanto parecem e é por isso que entramos em certas crises ao analisar nossos próprios atos: “Por que amamos quem não nos corresponde?”, “Por que chamei tal pessoa de “tal nome” se a amo tanto?”, “Por que passei tanto tempo no celular se poderia estar lendo um livro?”, “Por que não fiquei em casa hoje ao invés de sair para tal bloco de carnaval?”. Quando essas crises acontecem, o que de fato pensamos é algo como: “poxa! Mas era A que eu queria e não B, por que agi de modo B? Algo deve ter acontecido comigo naquele momento, com certeza não pensei direito.”. Existe um certo vício em encarar coisas pulsionais como coisas racionais.
Essas contradições internas que são evidenciadas pela comparação entre nossos atos e nossos pensamentos se dão porque cremos ser os animais plenamente racionais que Aristóteles falou que somos. Pensar dessa forma não dá conta do que de fato é o caso. É exatamente por pensarmos ser tão racionais que entramos em crise com nós mesmos, deixando de entender nossos atos, por pensar que foi um certo erro de raciocínio ou algo momentâneo que nos fez agir de tal forma quando na verdade o único erro de raciocínio é não compreender que não é o ato que está sob seu controle, mas que é você que está sobre controle de algo além: a vontade.
É pela vontade que você insiste em continuar um relacionamento que não vai tão bem e é pela vontade que você está agora no Instagram lendo o texto de um projeto de pesquisa da UERJ. Somos, no fundo, controlados por impulsos sobre os quais não temos o controle que imaginávamos ter. Até para agir “racionalmente” você teria antes que querer agir de tal forma, o que faz o querer ser anterior até mesmo à grande razão que é própria dos tão evoluídos seres humanos. A prova disso é que em situações realmente graves, em que há muita coisa em jogo, como uma questão de vida ou morte, pensamos de maneira nada plena, mas agimos quase que puramente pela emoção. Em um assalto à mão armada você não fica pensando e analisando os casos para ver se sairá ganhando agindo de forma A ou de forma B para então agir de tal forma e tudo o mais, você só age. Pode-se, também, pensar que um ser humano desprovido de razão (mas com instintos) seria ainda tão funcional quanto qualquer outro ser vivo, enquanto que um desprovido de vontade seria tão estático quanto uma pedra.
Texto por: Diego Mesquita (@deego_mesquita)

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