Favela Fantástica
A favela é um problema social e uma potência cultural, ambas dessas facetas, se misturam e fazem a massa de um bolo que não é repartido igualmente, pelo contrário, nós; o povo favelado (diversos em nossa existência, mas iguais em nossa exclusão) ficamos com as migalhas de um bolo que possui em sua cobertura o nosso suor sagrado. O cotidiano do favelado é duro, vivemos em um universo onde estamos inseridos em uma "realidade fantástica" digna de Gabriel García Márquez. A favela é um reino mágico, em dias de invasão os corpos brotam do chão como batatas doces e em alguns de seus becos podemos vislumbrar uma Veneza carioca, mas nesses dias, essa Veneza não é banhada pelo esgoto que cronicamente fica exposto em partes de nosso solo favelado e sim pelo sangue de máquinas desejantes desligadas em sua fonte.
Quero falar como as pessoas que habitam esse solo violado e esquecido podem encontrar caminhos para emanar suas pulsões, quero falar de como a favela é um lugar onde a sublimação faz morada.
A favela é um lugar onde a identidade é bem mais delineada e exigida que em outros lugares, nós, corpos favelados, temos a nossa subjetividade destruída, somos mais um na lógica do sistema, mais um para girar as engrenagens da máquina do capital. Nossos corpos são controlados de uma maneira diferente de outros corpos, o nosso corpo é agredido é massacrado, é violado.
Esse fenômeno de
supressão da singularidade e controle do corpo, acontece em todos os
espaços da sociedade, mas na favela e no Brasil profundo essa caça
à singularidade é mais potente. Então, por vivermos nessa
realidade tão castradora, a favela se transformou em um pólo
cultural, a favela é a própria sublimação em forma de território.
Nossa arquitetura, nossa música, nosso jeito de festejar, tudo é
sublimação e expressão desejante.
Boa parte da cultura
brasileira nasceu de nossa sublimação, o samba nasceu da
genialidade de nossos corpos periféricos (E leva nele a melancolia
da prisão do ser), o funk se gerou na necessidade de liberdade de
nossas máquinas desejantes (o funk é a pulsão querendo bailar pelo
espaço geográfico é o corpo que não cabe no corpo e que precisa
transbordar), o rap é o jeito de gritarmos um cotidiano maçante e
massacrante e de tentar arranhar as realidades impostas (o rap é uma
marreta desejante que tenta rachar a parede da realidade). Todos
esses movimentos artísticos nascem da sublimação de desejos
represados.
Outro ponto interessante de analisarmos é a
arquitetura favelada, mesmo morando onde moramos, sonhamos com os
"luxos" do capitalismo que penetra em nossa mente e joga
com nossos desejos. Em nossas casas muitas vezes o luxo de ter uma
piscina não é possível, então um barril ou caixas d' água velha
viram a nossa piscina em dias de calor e assim em nossa fantasia
habemus piscina. Lembro de um pai de um amigo que saiu do interior do
nordeste onde criava galinhas e porcos em sua pequena propriedade e
quando foi morar no complexo da Maré, ele simplesmente fez da laje
de sua casa uma verdadeira mini fazenda onde criava seus porcos e
suas galinhas.
Outra forma de tentarmos escapar da
realidade é a forma religiosa, muitas pessoas na favela encontram a
fantasia de uma fuga do sofrimento da sua realidade na fantasia de um
Deus, talvez seja esse o motivo de termos mais igrejas evangélicas
nas favelas do que bares. É impressionante, mas boa parte dos
moradores de favela que conheci que viraram irmãos da igreja, antes
eram irmãos do copo e da sinuca. Esses trocaram um vício pelo
outro, uma fantasia pela outra, fazem agora a felicidade dos pastores
e a tristeza dos donos de bares.
Nós favelados estamos
sempre lutando contra uma realidade dura que é imposta pra nós,
nossas fantasias pipocam em nossas máquinas desejantes, somos a
própria encarnação da sublimação, a nossa existência necessita
mais desse artifício que outras existências que ocupam outras
partes da cidade. Ser favelado é ter mestrado em sublimação.
Texto por: Gabriel de Lima (@filo.analise)
Imagem: Anderson Valentim

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