Será que não podemos entender a vida humana como uma grande odisseia ao que nunca vamos ter? Ora, vejam bem, nossas vidas não passam de momentos em que queremos algo e momentos em que finalmente alcançamos esse algo. Posso trazer diversas situações que comprovam o que digo, mas a verdade é que basta que todos nós olhemos para vossas vidas. Procuramos um sentido para a vida porque agir sem objetivo não basta. O que nos move é aquilo que nos falta. A vida só é valiosa porque acaba e um prato de arroz é um banquete ao indivíduo que está há dias sem comer. Caso tivéssemos tudo o que queremos, não mais teríamos o que querer e, por isso, a vida não seria nada. A prova disso é o fato de que vivemos para conquistar o que queremos. Muitos são os que, no leito de morte, sentem-se tranquilos por terem conseguido fazer o que se queria em vida, e agora, podem morrer em paz. 


Queremos o sentido da vida, queremos suprir nossas necessidades básicas e nossos prazeres. Mas, isso basta? A vida é isso de transferir o rótulo de “objeto desejado” de um objeto para o outro? Talvez seja, para felicidade de alguns e para o inferno de muitos outros. Os breves momentos de satisfação, talvez, só aconteçam por conta de alguma dificuldade mental de realizar que o objeto desejado, foi de fato conquistado (é como se sofrêssemos com algum tipo de “lag”). Quando se percebe, nosso querer logo é direcionado a outra coisa que nos falta, e isso é facilmente observável na sociedade consumista em que vivemos. 


Aliás, todos os mecanismos que pretendem afetar a sociedade, em grande escala, utilizam dessas noções. Todos eles nos prometem certa satisfação e é por isso que as massas se põem na odisseia de conquistar tais coisas. Nos prometem o prazer eterno do paraíso e nos prometem um banquete nos comerciais de restaurantes, mas não é algo dado assim “de graça”. Para irmos pro céu, devemos viver toda uma vida de esforços e penitências; para comermos em tal restaurante, devemos trabalhar arduamente... Há um certo poder nas mãos daqueles que perceberam que, o que de fato move o humano, é a promessa de que ele terá aquilo que ainda não tem. 


Não só o ser humano, mas todo ser que vive, é posto na dinâmica do querer. Todo animal adestrado o é através do sistema de recompensas (promessas). Quem nunca viu adestradores dando petiscos aos animais depois deles terem feito o que se pedia? Ou mesmo em experimentos científicos, como os feitos por James Olds e Peter Milner ou Skinner, que mostravam a resposta dos animais aos estímulos de prazer. Inclusive, as plantas parecem se direcionar ao que lhes proporciona um certo prazer. 


Uma característica interessante da dinâmica do prazer, já citada aqui, é que quanto maior a distância do desejante do objeto desejado, maior a promessa de prazer. O que nos é próximo e acessível parece se encontrar em um certo ponto cego da nossa perspectiva. Pode-se pensar, nesse caso, naqueles momentos em que alguém altamente privilegiado se encontra reclamando de certas coisas que não chegam nem aos pés das questões daqueles que não são tão privilegiados. Ou, saindo das questões de privilégio (de certo modo), pode-se pensar em situações em que algum de nossos familiares morre e logo pensamos que deveríamos ter “aproveitado” mais a sua vivência próxima de nós. O luto talvez seja o perceber que não mais podemos ter o prazer de compartilhar a existência com tal ente querido, é um prazer que não nos é mais acessível e que nunca mais será. 


Desse modo, o que nós temos, e temos certeza de que temos, perde seu valor. Adquirimos um certo “tédio” em relação a esse objeto. Já aquilo que se encontra distante da nossa posse é o nosso maior desejo. Dessa forma, fica fácil perceber que, como Schopenhauer expõe, a vida talvez seja o eterno sofrimento da busca por algo que nunca teremos: a satisfação absoluta. 


Obra: Um Banho em Asnières, 1884 - Georges Seurat.

Texto de: Diego Mesquita (@deego_mesquita)

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