À medida que as distinções entre o humano e o não humano, o individual e o coletivo, o natural e o cultural, o orgânico e o inorgânico são dissolvidas, novas formas híbridas e derramadas emergem. A realidade, assim, se torna cada vez mais estranha e desafiadora para a nossa compreensão. Nesse contexto, é fundamental reinventar o horizonte especulativo, a fim de que ele nos proporcione os subsídios necessários para uma nova compreensão do real. Uma compreensão que leve em conta a relacionalidade, processualidade e dinâmica interativa entre elementos heterogêneos, atribuindo a essas relações um peso ontológico decisivo.



Para compreender a natureza em toda a sua complexidade, é necessário abandonar reducionismos e uma perspectiva antropocêntrica. Devemos considerar que somos o resultado de uma conjunção de diversos efeitos, eventos, ocasiões e processos, sejam eles químicos, físicos, bacteriológicos, cosmológicos ou psicológicos, que interagem em uma rede complexa de relações. Nessa visão, não há mais sentido em antagonizar homem e técnica, humano e máquina, real e ficcional, natural e artificial. Todos os elementos são atores dentro dessa rede, interagindo uns com os outros, sejam humanos ou não humanos, e mobilizando diferentes "nós" em diferentes graus. Em todos os níveis da existência, tudo se torna agência, sem diferença de natureza entre os agentes, mas com diferentes modos de se relacionar e diferentes tipos de relações sendo estabelecidos.


Assim, a realidade pode ser vista como uma soma de agências, de eventos dessubstancializados, no qual são formadas regularidades temporárias, onde a infinita combinação de eventos dá origem a propriedades emergentes e mantém funcionando a máquina-mundo (mundos em processo).


Texto de: Esdras Guedes

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