É preciso saber viver?


Há uma música da banda Vespas Mandarinas cujo título é “Já não sei o que fazer comigo”*. 

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É difícil não se identificar com os versos da música. A primeira estrofe, por exemplo, diz: Já tive que ir a missa obrigado/ Já tentei ser um homem casado/ Já aprendi a fingir meu sorriso/ Já fui sincero e já tive juízo/ Já troquei de lugar minha cama/ Já fiz comédia, eu já fiz drama/ Já ouvi cada voz que me chama/ Eu já fui bom e já tive má fama.

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A música retrata uma experiência muito comum para os indivíduos de uma espécie cuja programação biológica veio quebrada.

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Ao contrário de muitos outros animais, nós chegamos ao mundo invariavelmente prematuros, inteiramente desamparados. 

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A programação biológica não dá conta de nos instruir corretamente. Não sabemos o que comer, não sabemos o que é perigoso e o que não é, não sabemos quem é amigo e quem é inimigo, não sabemos quem é parceiro sexual e quem não é, não sabemos do que gostamos e do que não gostamos.

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A verdade é que não sabemos como viver. Não sabemos o que fazer com essa existência. Desde que se instalou em nossa rede afetiva a função-fantasia, somos abençoados com a condenação e condenados à bênção desse mais-querer incessante que exige sempre-mais do que há. 

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Desde então já não nos basta uma ração nutritiva diária. Desenvolvemos toda uma complexa culinária. Dormimos sempre demais ou de menos, nunca exatamente o bastante. E as redes afetivas e fantasias que compõem para nós uma sexualidade já nada têm a ver com “reprodução” biológica.

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Prova maior desse não-saber fundamental é a proliferação sem fim de “saberes”, de scripts, de receitas e manuais que nos dizem quem ser, como viver, o que fazer e para onde ir. Todos eles irremediavelmente fake. Fantasias que tentam tapar o buraco sem fundo do Impossível que se escavou no lugar da nossa essência.

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Quanto mais sonora e eloquentemente os coaches, os padres e os pastores afirmam ter descoberto o jeito certo de viver, mais evidentemente revelam esse incontornável silêncio do não-saber fundamental que jaz no fundo sem fundo de toda existência humana.

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Texto por: Diogo Bogéa 



*Versão brasileira da original uruguaia da banda El cuarteto de nos.

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