Sim, mas o que é a filosofia?
Uma própria forma de perguntar o que é a filosofia pode já deixar vislumbrar o que só a filosofia pode ser: filosofia, se diria, pode ser a busca pelo significado - ou pelo sentido.
A busca pelo sentido ou pelo significado é exatamente a incessante busca que todo ser linguístico, ao menos a partir do regime do alfabeto, faz quando se defronta com qualquer coisa, seja um objeto, um ente ou uma palavra.
Desde a chamada virada linguística, no século passado, "sentido" e "significado" passam a ser diretamente ligados à dimensão da palavra. As palavras, poderíamos dizer, existem na medida em que têm ou não um significado e, geralmente, elas se dizem em vistas do seu sentido. O significado de uma palavra muda de acordo com a realidade e muda o tempo todo para cada um que o significa, muda de acordo com o sentido que lhes dão. Não pode haver apenas um sentido ou significado para uma palavra porque esse significado nunca é totalmente preciso e sempre vai mudando com o tempo.
A partir do momento em que somos submetidos ao alfabeto, vemos que nossas palavras são símbolos que querem apontar para coisas e que nos lembram dessas coisas a partir dos sons que nós já conhecemos. Um som novo pode significar uma palavra nova que diz algo que a gente já conhece ou não conhece ainda.
Não se pode apenas definir nem cientificamente, nem apenas culturalmente, nem politicamente, nem artisticamente o que é o sentido ou o significado dessas coisas. A filosofia é um salto no escuro exatamente porque, se busca pelo significado, não pode se apoiar em nada, nem em si mesma, embora deva a tudo suas estruturações. A filosofia não é algo de especialistas ou experts. Antes, a filosofia é uma experiência sempre possível de ser sentida ou compartilhada por todos aqueles que são submetidos às formas de fala e dizeres do alfabeto, ao menos, mas talvez não só(*). Isto porque essas pessoas estão sempre se perguntando sobre o significado o tempo todo. A filosofia está sempre ali por ser feita. Só se pode viver filosoficamente, isto é, buscando pelos significados. A diferença é o quanto nós pensamos nisso: se pulsamos para sentir muito ou pouco.
A diferença entre a filosofia e um dicionário, nesse caso, é precisamente a diferença entre a determinação e a indeterminação: o significado da palavra "x" pode estar no dicionário, mas e o significado de todas as palavras frente à realidade que vivemos? Isso só pode ser discutido a partir de alguma coisa como a filosofia exatamente porque a filosofia é um salto no escuro. Não há dicionário a ser consultado nesse caso. A busca pelo significado não busca só o significado em si, a sua identidade, mas também pensa a partir das suas diferenças.
É a partir dessa abertura que se pode saber que só se pode pensar o significado, e não determiná-lo. Um mundo com a ciência em seu apogeu é um mundo que precisa bastante da filosofia, porque, enquanto a experiência ainda for alfabética, ela, a filosofia, ainda vai estar lá. Enquanto ainda se pensar em sentido e em significado, ainda se pode fazer boa ou má filosofia, dependendo do que se acredita depender dela. A ciência conhece os objetos. Toda ciência precisa postular um objeto e um método para conhecê-lo. Saber qual é o sentido ou o significado do que se conhece não acontece como a ciência, como o conhecimento, desse objeto. Acontece como pensamento, não como (ter) ciência.
O pensamento não é algo meramente especulativo exatamente porque ele acontece. Ele não é meramente impreciso porque ele pode ser defendido, mesmo que possa ser vários. Não há para onde fugir: ele pode ser verdadeiro na medida em que ele faz sentido. E se ele faz sentido, se esse sentido pode ser realmente sentido ou se faz sentido, só se pode dizer por quem diz, em última medida. O falso pode perdurar durante muito tempo. Se não queremos isso, isso é responsabilidade. O ser linguístico não pode delegar isso a mais ninguém a não ser ele mesmo, como singular ou como plural. Por isso também a filosofia não tem ou não deveria ter um "método": o "método" nasce junto com o significado. A busca é anterior e posterior ao método. O alfabeto, entretanto, enquanto dominação, sempre prescreve uma espécie de pré-método, mas o pensamento tende a ir sempre além e aquém dessas e de suas prescrições.
Na medida em que a filosofia é a busca pelo significado, a filosofia também é praticada por todos que estão sob o alfabeto, porque vivemos buscando o significado.
Tenho certeza de que, como já foi, o que a filosofia é pode continuar a ser buscado.
Texto de: João Pedro Martins

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