Uma questão que muito me interessa é aquela que foi trazida por Schopenhauer na elaboração da imagem do pêndulo: a dinâmica existente entre a ânsia de ter e o tédio de possuir. Todos nós temos, de certo modo, uma familiaridade com esse movimento pendular entre ânsia e tédio, entre o querer ter e a indiferença da conquista. Podemos dizer, aliás, que toda a história da humanidade se desenrolou através dessa dinâmica. Essa dinâmica dá conta de explicar a incessante conquista romana, o colonialismo, o capitalismo… É levando em conta a vontade e sua dinâmica que conseguimos explicar os absurdos cometidos por sociedades que se consideravam plenamente racionais.

É também por essa dinâmica que podemos entender as diversas situações "paradoxais" em que nos encontramos durante nosso tempo de vida. A importância de entender o funcionamento dela se dá pela facilidade de acreditar em uma certa satisfação completa ao adquirir o objeto desejado, quando, na verdade, a nossa vontade, a nossa ânsia, é redirecionada para outro objeto. Podendo até mesmo desejar o oposto do queríamos antes. Cito, para dar um exemplo, uma situação hipotética:

"Joana está em casa, entediada, em um dia de domingo, pedindo às forças maiores que alguém a chame para sair a fim de fugir do tédio. Tal coisa acontece e Joana acaba indo à uma festa com uma colega. Entretanto, na festa, Joana percebe que não era tão boa quanto imaginava (quanto fantasiou em sua mente) e que não era isso o que ela de fato queria. Assim, ela começa a desejar voltar para o conforto de seu lar."

No fundo, o que acontece é que Joana não quer o conforto do lar ou a diversão de uma festa. O que Joana quer, no fundo, é o que ela não tem. Quando não tinha a festa, se fantasiou em uma e achou o conforto entediante. Quando na festa, achou-a chata e imediatamente sonhou com o conforto de casa. Queremos sempre aquilo que nos falta e quando temos o que faltava, não mais o queremos e já começamos a pensar em outra coisa que nos falta. E por vezes, o que queremos é ter falta daquilo que temos, para então o queremos novamente.


Vale comentar também sobre a dinâmica da fantasia. Talvez aquilo que explique o porquê da grama do vizinho ser sempre a mais verde. É a nossa distância do objeto desejado que nos permite fantasiar sobre ele. A nossa grama sempre é, de certo modo, próxima demais a nós mesmos, não há novidade nela, já que vemos cada instante de seu desenvolvimento. A do vizinho, não. Dado que não temos acesso integral ao objeto desejado, fantasiamos sobre ele, levando em conta apenas suas qualidades, seus pontos positivos.

É isso que explica tanto o tédio de possuir quanto a ânsia de ter. No fundo, o que queremos é a fantasia que criamos, não o objeto desejado. A fantasia é perfeita e polida, mas o objeto é temporal e limitado, repleto de erros e com tempo de vida útil. Basta o termos em mãos para que se torne tão desinteressante e normal quanto ao resto do que já temos. A ânsia se dá pela fantasia, pela promessa. O tédio, pela realidade. O sonho realizado se torna real e deixa de ser sonho. Tudo que toca a nossa realidade se torna próximo de nós, se torna palpável. O palpável deixa de ser novidade. A esperança do ser humano é a de encontrar algo que transcende toda a normalidade que o cerca. A vida não basta.


Obra:  A Ronda dos Prisioneiros, de Van Gogh.

Texo de: Diego Mesquita



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