Onde está nossa mente?
No século II d.C., por decreto das autoridades romanas, o bispo Saint Denis foi subjugado à prisão, tortura e, por fim, condenado à decapitação no cume de uma colina. Todavia, os soldados romanos, movidos pelo cansaço ou possivelmente pela indolência, determinaram executar Saint Denis antes de atingirem o destino originalmente designado. É nesse instante em que a cabeça do bispo é separada de seu corpo e rola pelo solo. Conta-se, com uma aura misteriosa, que Saint Denis, mesmo destituído de sua cabeça, a recolheu do chão e, segurando-a em suas mãos, prosseguiu com sua ascensão pela colina.
A partir dessa lenda, o filósofo francês Michel Serres, em sua obra intitulada "Polergazinha", nos instiga à reflexão sobre a agência humana em relação aos objetos técnicos e, sobretudo, como nos dias atuais carregamos nossas mentes em nossas mãos, por meio de nossos sofisticados aparelhos celulares.
O fenômeno da polergazinha, mais do que uma simples revolução tecnológica, emerge como um cenário de distribuições inovadoras, cada vez mais híbridas, no qual estamos imersos na produção de nós não-humanos. Nesse contexto, estabelece-se uma nova relação entre os seres humanos e a técnica, na qual confiamos cada vez mais a complexidade de nossas operações neurais aos chips de silício. Nossa afetividade se entrelaça com materiais heterogêneos e nossa memória parece transcender a estrutura orgânica que nos constitui, encontrando morada em uma extensão inorgânica que nos acompanha incessantemente.
Essa nova configuração implica em uma relação transformada com a matéria, com o passado, a lembrança e o pensamento. Tal relação exige a necessidade premente de renovar o estudo dos espíritos e das mentes, em virtude da mutação que envolve a experiência humana.
Estabelece-se, assim, um plano em que nossas conexões são modificadas, no qual a rede de nervos de nossa constituição se entranha em novas vizinhanças. E nós, desviando-nos por trajetos diversos, próximos e distantes, estranhos e familiares, no emaranhado do ser, costuramos outras preposições, através de uma tessitura que se estabelece entre, com, nos interstícios.
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