Vivemos adestrados, acorrentados e castrados. Até certo momento, definiram-se os animais como criaturas irracionais, que agem puramente pelos instintos, classificando-os como inferiores aos seres humanos, esses que eram dotados de racionalidade e privilegiados pelo ponto de vista das religiões judaico-cristãs. Tal perspectiva foi o que possibilitou a subjugação de todos os outros seres vivos, dominando-os e transformando suas existências em ferramentas auxiliares para nossa própria existência. Os adestramos, os acorrentamos e os castramos. São adestrados para agir como gostaríamos; acorrentados para só irem até onde permitimos e castrados para que não seguissem seus instintos além do que gostaríamos que seguissem.
Mas o que acontece é que seríamos muito ingênuos se enxergássemos essas atitudes apenas entre os humanos e os animais, dado que, no mundo ocidental, tudo isso sempre aconteceu e continua acontecendo entre os próprios humanos. Eu poderia – e pretendo fazê-lo posteriormente – citar todas as atrocidades feitas pela humanidade “em nome da razão”, como o colonialismo e o imperialismo, mas gostaria de lançar o olhar sobre algo mais geral e evidente no mundo de hoje e que igualmente cerca o ser humano, a saber, o modo de vida capitalista que quase todos nós seguimos nos dias de hoje.
Ao nascermos, crescermos e até ao morrermos, o fazemos dentro das possibilidades dadas pela doentia sociedade do consumo, da eficiência e da produtividade. Vivemos não como queremos, mas como podemos e isso vai além, dado que somos levados a querer pelos próprios mecanismos pró-consumo. A verdade é que todos aqueles por trás desses mecanismos entenderam que somos tão animais quanto qualquer outro animal e que somos tão adestráveis, acorrentáveis e castráveis quanto eles são.
Somos adestrados a estar todos os dias no mesmo lugar para bater o ponto só pelo fato de que nos dão um certo valor no final do mês que nos possibilita comprar nossos “petiscos”. Não escolhemos nossos nomes, nossa língua, nem a entrada ou não nessa jornada para o sucesso que somos postos a trilhar. Assim como nos casos em que se adota um cachorro filhote para que cresça “educado” e “familiarizado com o dono”, somos inseridos na querela do consumo e da produtividade desde cedo, para que não conheçamos outra realidade senão essa. Querendo ou não, tratamos toda essa situação artificial como algo natural, você está com o celular na mão lendo meu texto em tal rede social e eu estou aqui no computador escrevendo o texto para postar na rede em que você irá ler. Eu o faço por questões de produtividade e você o lê por questões de consumo. Nos pediram a patinha e estamos aqui dando-a.
Somos acorrentados pois todas as possibilidades de nos movimentarmos para fora desse modo de viver nos são cerceadas de diversas maneiras. O querer consumir foi transformado por eles em um dever de consumir. Não mais temos a opção de simplesmente vivermos de outra maneira. Não se trata mais de meramente querer algum produto, mas de precisar. Somos cercados por normas sociais que não fazem sentido e que nos prendem dentro de um jogo de necessidades, que nos afasta daquilo que seria o nosso natural. Um exemplo disso é o fato de sempre estarmos buscando algo que, quando paramos pra pensar, não é aquilo que realmente importa: diplomas, salários, objetos, etc... O essencial pro ser humano deveria ser aquilo que não conseguiríamos viver sem em hipótese alguma e todas essas coisas citadas poderiam não existir e não fariam a menor falta. Se a perseguimos, a perseguimos por sermos induzidos a isso, e depois que tomamos essas coisas como essenciais, não mais conseguimos pensar fora dessa dinâmica do ter.
Somos castrados quando tiram de nós a possibilidade de termos aquilo o que queremos apenas por não ser de fato o que querem que queiramos. Privam-nos da possibilidade de perseguirmos desejos singulares a fim de que tenhamos vontade de perseguir as coisas da tendência. Há uma uniformização dos indivíduos, e com isso uma castração das singularidades. Tentam nos tirar tudo aquilo que poderia nos fazer únicos, apenas para que não tenham de lidar com o que isso poderia gerar. Se o fato de nos acorrentarem nos impedem de ir além do que querem, a castração se dá para que deixemos de ter a vontade de irmos além. Não são poucos os que se sentem tristes ao comparar a criança que era com o adulto que se é. Nascemos maravilhados com a existência e perecemos cansados dela. A criança que antes sonhava com galáxias encontra-se cinza, sonhando com dígitos em uma conta bancária. A realidade continua sendo aquela, maravilhosa. Nós é que deixamos de ser maravilhados. Assim com a castração dos animais, a castração feita por esse modo de vida também nos impede de colocar algo no mundo que vá além da nossa própria existência, nos impede de sermos criativos e criadores.
Texto por: Diego Mesquita
Imagem: A balsa da Medusa, 1818 de Théodore Géricault

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